Publicado por: China Trade Center | 07/07/2011

Em Cantão, a feira que junta todos os produtos do mundo

Turbantes, sáris, camisas sociais e de futebol, sotaques e línguas se misturam na maior feira de importação e exportação do mundo

Com uma sacola de pano no ombro, lotada de catálogos de produtos, o goiano Celmo Gonçalves Camilo andava entre máquinas agrícolas na área externa do bloco A do complexo da Feira de Cantão, maior evento de importação e exportação do mundo. Acompanhado por seu intérprete, um estudante de Pequim, ele procurava um fornecedor para sua empresa de pesticidas no Brasil. Em seis horas de caminhada, nas quais percorreu grande parte do espaço destinado aos maquinários, encontrou dois potenciais parceiros de negócios, com quem agendou visitas nas fábricas para os dias seguintes.

Como Camilo, nada menos do que 200 mil compradores, de mais de 40 países, passaram pelos corredores limpos e coloridos da 109ª edição da feira, que aconteceu de 15 de abril a 5 de maio na cidade de Guangzhou, na província de Guangdong (Cantão), no sul da China. Turbantes, sáris e camisas de time de futebol mostram a diversidade dos visitantes que se deslocam de diversos pontos do mundo para buscar bons negócios no evento.

A estimativa do porta-voz da Feira de Cantão, Li Jianjun, é que o volume de produtos vendidos durante os 15 dias de feira somem, no mínimo, R$ 47 bilhões. Foi esse o valor movimentado na última edição, em outubro. Apesar de o governo chinês afirmar que pretende diminuir a dependência das exportações na economia, o fato de a China ser o país mais competitivo do mundo torna a missão quase impossível. E isso é nítido na Feira de Cantão. O custo de um purificador de ar, por exemplo, é de R$ 18, para uma compra de cinco mil unidades. Enquanto isso, a AirFree, empresa europeia que vende um produto semelhante no Brasil, cobra R$ 60, nas mesmas condições.

No setor de eletrônicos, os estandes de aparelhos de telefone celular, acessórios e equipamentos de computação estão sempre cheios. Uma das novidades deste ano era a capa com carregador sem fio de Iphone, cujo preço de atacado da expositora, Odja, é R$ 30. No Brasil, os consumidores encontram o produto no varejo com a marca Mobimax, que tem a China entre seus fornecedores, por R$ 399.

No mesmo corredor da Odja, um pouco mais adiante, os compradores lotavam o estande da Jiangqiao Bamboo, que produz teclados, mouses e suportes para computador de bambu. “A várias tonalidades da madeira e o conceito de natureza chamam a atenção,” diz a vendedora, Ma Jianjin. O preço de custo de um mouse de tom vermelho é R$ 10, enquanto um teclado wireless, no atacado, é vendido por R$ 45.

Fábrica do mundo

“Os chineses têm vantagens sistêmicas: um mercado de trabalho terrivelmente forte em competitividade, uma grande eficiência e um enorme dinamismo”, afirma o economista Antonio de Barros, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com subsídios do governo em diversos setores, infraestrutura favorável à produção e ao transporte, mão de obra barata – o salário mínimo chinês é, em média, R$ 260, contra R$ 545 do Brasil – e empresas relutando em elevar os pagamentos, a China consegue oferecer os menores preços em diversos setores.

“Depois de ter se tornado a fábrica do mundo, é difícil mudar o motor de crescimento do país”, diz Craig Bond, presidente do Standard Bank na China. Assim, mesmo pretendendo direcionar sua economia ao mercado interno, a mudança deve levar muitos anos. Enquanto isso, a Feira de Cantão deverá continuar lotada e recebendo mais brasileiros.

Na estimativa de câmaras de comércio, quase 20 mil brasileiros devem ter participado do evento este ano, atrás dos mais diversos produtos, desde utensílios domésticos e brinquedos, passando por móveis, cortinas e janelas, até máquinas e pequenos tratores. “A economia brasileira aquecida favorece os negócios. Ao mesmo tempo, mais brasileiros estão vendo a China como um bom parceiro e, ir para a feira, é um primeiro passo”, afirma Tang Wei, diretor da Camara Brasil China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE). Em três anos, o aumento da participação de brasileiros e indianos ficou evidente, enquanto caiu a predominância europeia e norte-americana. Ainda se ouve muito inglês, francês e alemão nos corredores da feira, mas o português e o hindi parecem muito mais presentes.

Para Ekaterina Savinova, gerente da empresa China Invest em Xangai, que acompanhava a uma missão da Amcham, muitos europeus estão optando por participar de eventos segmentados, depois de já terem freqüentado a Feira de Cantão há anos. “Eles já tiveram um primeiro contato com a China, na feira mais importante, agora vão apenas a eventos específicos, menos cansativos” afirma.

De fato, depois de atravessar corredores e mais corredores de estandes, espalhados por 1.200 quilômetros quadrados da feira, a sensação é a de ter corrido uma maratona. Além do cansaço físico de andar entre torneiras, aparelhos eletrônicos, equipamentos para carros, lâmpadas, ventiladores e eletrodomésticos, o visitante também gasta energia negociando e carregando as amostras e catálogos distribuídos pelos fabricantes.

Intérpretes

A maioria dos visitantes anda em duplas, geralmente são casais, sócios ou pai e filho, muitas vezes guiados por uma jovem intérprete local. Diferente do que se vê nas ruas, as chinesas que trabalham como tradutoras na feira vestem trajes discretos, geralmente tailleurs de cores sóbrias, e evitam deixar as unhas com os esmaltes brilhantes e coloridos que são sucesso entre as estudantes do país. “Estou trabalhando. Então prefiro não colocar meus acessórios,” diz Sandy Liu, que acompanhava um comprador europeu atrás de aspiradores de pó.

Apesar de os vendedores que ficam nos estandes falarem um pouco de inglês, os tradutores ajudam a conseguir mais detalhes dos produtos. Além disso, quando eles conversam com entre si, se revelam mais simpáticos. Para o estrangeiro, essa abertura pode facilitar a aproximação e as pechinchas.

Mesmo quem chega a Guangzhou sem um tradutor pode conseguir contratar um na entrada da feira. Atrás das cercas que delimitam a entrada de estrangeiros ao complexo de Pazhou, que sedia o evento, vê-se um empurra-empurra semelhante aos dos estádios de futebol. Dezenas de jovens chineses, segurando placas escritas em todas as línguas do mundo, oferecem-se para ajudar nas negociações com os vendedores. Em média, cobram US$ 50 dólares (R$ 80) por seis horas de trabalho, equivalente a 400 yuan, suficiente para pagarem pelo menos dez almoços fartos na China. O visitante precisa pagar ainda outros 300 yuan (R$ 75) para fazer o cadastro do seu ajudante, três vezes o valor pago para a inscrição dos compradores estrangeiros.

O preço para os locais é alto propositalmente. A organização da feira, a pedido dos fabricantes, faz de tudo para evitar visitantes chineses no evento. O temor das empresas é que seus concorrentes se façam de compradores para imitar seus produtos e oferecer um preço inferior. Em alguns estandes, os vendedores sequer permitem que os visitantes tirem fotos das amostras.

Além disso, se os visitantes chineses estiverem sozinhos, podem não conseguir sequer os preços dos produtos. Yuyu Ye é consultora da Unitrade, empresa de importação e exportação especializada em atender brasileiros e portugueses que prentendem fazer negócios com chineses. Ela nasceu na China, viveu em Portugal e tem as duas nacionalidades. Para entrar no evento, levou seu passaporte europeu. Mas, na hora de negociar, encontrou resistência para descobrir as especificações de máquinas de café.

“Como eu estava sem nenhum estrangeiro, enquanto não mostrei o cartão da minha empresa e convenci os vendedores de que estava representando uma compradora de Portugal, eles evitaram me dar os valores,” conta. Explicada a situação, Yuyu conseguiu as informações que precisava e também uma amostra, que pode despachar em um dos estandes do correio que os organizadores distribuíram pela feira.

Limpos e ricos

“Eu sabia que a feira era grande, mas fiquei surpreso com o tamanho e a estrutura”, disse o mineiro Tiago Domingos, que estava no mesmo grupo de viagem de Camilo, organizado pela Amcham. Diretor industrial da SunQuímica, de Uberlândia, ele foi à Guanghzou procurar fornecedores de matérias-primas. “Apesar de ainda não ter fechado negócios, não tenho dúvidas de que a viagem valeu à pena, pois as opções de empresas presentes são inúmeras”.

Ao todo, 23 mil fabricantes chineses expõem seus produtos no evento. Em dois dias, Domingos seguiu os mapas do complexo e conseguiu passar por todos os estandes que tinha interesse, cerca de 60 em um universo de 58.706. Mas, se não der tempo de ver tudo, os organizadores distribuem um catálogo com os contatos de todos os expositores em CD ou em um encarte, que é maior do que listas telefônicas da maioria das cidades brasileiras.

Tanto Domingos quanto Camilo, que visitavam na feira pela primeira vez, ficaram admirados também com a limpeza do local e a riqueza da cidade de Guangzhou. Dentro da Feira de Cantão, funcionários lustram o chão o tempo todo e não se vê chineses cuspindo em qualquer lugar. O hábito, que para eles significa colocar para fora o que é podre, vem se tornando impopular entre aqueles que convivem com estrangeiros. Michelle Yang, que trabalha como tradutora, diz ficar até envergonhada quando um taxista abre a janela para cuspir.

Na cidade, o que chama a atenção são os carros de luxo e o avanço da infraestrutura. “À noite, perto do hotel, há uma discoteca com fileiras de Ferraris, Masseratis e Porsches estacionando”, disse Camilo. Nas ruas, há poucos buracos. “Os chineses já fazem logo 15 centímetros de asfalto. Então não precisam ficar recapeando, como nós fazemos,” diz o goiano.

Com 12 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) de 911,3 bilhões de yuan, cerca de R$ 230 bilhões – semelhante ao do Estado de Minas Gerais, que tem 19,5 milhões de pessoas –, a cidade é uma das mais ricas da China e vem crescendo 11,5% ao ano.

Cortada pelo Rio das Pérolas, é uma das principais metrópoles da província de Guangdong. O cenário urbano, assim como em diversas metrópoles chinesas, é composto pelo contraste entre arranha-céus, modernos metrôs – lá são oito linhas e mais de 100 estações – e, ao mesmo tempo, antigas casas de chá e praças cheias de adultos e idosos que todas as manhãs se reúnem para dançar músicas tradicionais.

Números da Feira de Cantão:

109ª edição
23 mil expositores
58.706 estandes
200 mil visitantes
1,2 mil quilômetros quadrados
R$ 47 bilhões em exportações

Texto e Fotos: Olivia Costa Alonso (http://economia.ig.com.br)

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